| |
Aceita-ação
Dentro de todos nós reside um pequeno ditador. Ele fica lá, do alto de sua torre de comando, distribuindo regras e controlando todas as situações à sua volta. Esse mini-Hitler vive as frustrações de maneira inconformada. Não as aceita e, como uma criança birrenta e mimada, tenta tirar as calças pela cabeça – de tanta raiva que sente. Raiva da situação imprevista, da falta/buraco que ficou, do amiguinho que não conquistou, dos pais que não lhe deram aquele brinquedo, do amor que não recebeu, da mamada que não pôde ter, da família perfeita que nunca existiu. E essa raiva fica, permanece e se esconde entre-linhas na escrita da vida.
As ilusões/fantasias se impregnam na psique da criança e se perpetuam. Em geral, tais impressões ficam extremamente bem escondidas e guardadas num canto escuro da consciência, à espera de que uma certa sequência de fatos faça-a pular para fora feito bicho. E quando vem à tona, essa resposta se mostra com enorme força, feito uma onda gigante. Isso acontece pelos longos anos em que a fantasia permaneceu guardada, asfixiada, escondida como uma grande vergonha. Um enorme esforço foi feito na tentativa de conter essa dor. Ao reprimi-la, essa energia acaba por se fortalecer e se corromper/perverter ainda mais. Diante disso, é hora, portanto, de ver, olhar e deixar submergir toda dor e frustração – e a raiva subsequente que se seguiu a elas. Eis um dos primeiros passos rumo à libertação desses padrões obscuros e desconhecidos.
Olhá-los de frente, encará-los com ternura, observá-los livre de julgamento. Entendê-los com o coração fortalecido em compaixão e compreensão. Entrar em contato com essa dor, observá-la e deixá-la passar. Sim, porque essa dor não vai durar para sempre. Especialmente se a deixamos se manifestar. Aliás, não é a dor em si que obstrui o caminho da evolução, mas antes “a exigência de que a vida deve ser perfeita e de que lhe deve ser entregue em sua perfeição. Se você for bastante fundo, irá inevitavelmente descobrir que existe uma parte sua que nega a dor e a frustração; um lugar onde você abriga a raiva e o rancor por não existir uma autorização amável e disponível que eliminará por você as experiências que lhe são indesejáveis”*. É nesse mesmo lugar que vive nossa criança ferida, nosso mini-ditador, os limites e nossas frustrações que se tornam sacos-sem-fundo desde a infância e que, se não tiverem a devida atenção, seguem nos acompanhando vida afora.
A realização pessoal não é fruto de uma vida perfeita. É, sim, resposta natural a uma atitude transformadora e competente, mesmo diante de situações adversas. A satisfação interna é ainda mais forte quando, diante de um desafio, a resolução do mesmo expande a percepção da própria força, desvela o desenvolvimento dos talentos e o quanto somos ricos em recursos e plenos de habilidade criadora. “Quando você adotar esse modo de viver, problemas externos ocaionais serão o sal da sua vida e se tornarão quase agradáveis. Eles serão cada vez mais raros, e um viver de paz, de alegria e de criatividade se tornará a regra”*.
É chegada a hora de viver em aceitação – conceito que nada tem de passividade. Mas que, por outro lado, é repleta de ação – a ação de aceitar a vida e as circunstâncias que se sucederam nela. Aceita, respira. Aceita, respira. Entende o ciclo de vida-morte-vida-morte-vida-morte-vida... Simples assim. E o que fazemos desses ciclos será nossa ruína ou a nossa maior riqueza. Deixe que sua criança ferida venha e lhe dê todos os recados. Deixe-a falar, mas apenas por tempo suficiente para observar e esvaziar seus conteúdos. Não se identifique com ela. Mas antes, compreenda-a com compaixão e acalme-a, aceite-a e dê o exemplo da aceitação.
Mostre-a como funcionam os ciclos da vida. E como é lindo fazer deles o melhor que pudermos. Abra para ela o universo de infinitas possibilidades de superação das frustrações e das raivas. Apresente-a às inúmeras habilidades que é possível criar a partir do desejo não-realizado. Resgate-a daquele mar agitado de desordens, e ensine-a a boiar na água, entregue ao fluxo da vida, com confiança na própria capacidade de evoluir em qualquer que seja a situação. Eis o exercício da aceita-ação!
* Trechos citados a partir do livro “O Caminho da Autotransformação”, por Eva Pierrakos.
Escrito por Dani Guima às 09h19
[]
[envie esta mensagem]
[link]
Nos braços de um anjo
Acabei de assistir o filme Cidade dos Anjos pela enésima vez. Mas como o rio em que pisamos nunca é o mesmo, pois novas águas sempre passam por ali, digo que assisti-lo foi como encontrar essa história pela primeira vez. Um anjo que ouve a música do Universo em todo o nascer do Sol e todo o pôr do Sol. Um anjo que não sente dor, não conhece a fome. Que confia na ordem do universo, que desconhece o apego, o medo de perdas, o pânico da entrega, do contato... Esse mesmo anjo que vive em paz, livre dos percalços da vida, começa a ser invadido pelo desejo de viver na carne.
Ele quer experenciar a aventura do existir. A intensidade de um toque. A leveza do vento. Quer conhecer o cheiro da chuva, quer sentir. Sai dos braços de uma condição livre da dor (unidade) para experimentar sensações (dualidade). Ele se percebe sendo visto por uma mulher, se sente ‘tocado’ por essa possibilidade, e se apaixona pela vida humana que existe com toda a sua imprevisibilidade. E Seth escolhe, no final das contas, sair daquele mundo de beleza e viver a grande aventura de ser humano. Ele topa se sujeitar a toda sorte de situações que provém de um mundo habitado por seres que têm o livre arbítrio. Riscos enormes que evidenciam situações boas e ruins, de prazer e de dor. É no mistério da dualidade que a gente se perde, e que a vida se faz. Se não houvesse perda, não saberíamos do que é feito o ganho.
Ele morre para a eternidade, para a vida pacífica e linda dos anjos. Ele escolhe morrer para uma existência livre da dor e da destruição para poder sentir. Cai, se machuca, se torna humano. Se levanta, sai correndo pelo mundo para encontrar aquela mulher. Conhece a limitação da distância, descobre a necessidade de ter dinheiro para se locomover, é assaltado por homens que levam seus sapatos e o machucam. Fica à mercê do livre arbítrio de algum ser humano que possa lhe dar uma carona e o levar ao destino final do seu grande salto rumo à vida.
Depois de uma longa experiência humana, ele a encontra fisicamente. Ele a toca, a sente, a beija, a penetra, a ama com seu corpo inteiro. Se perde em cheiros, toques, calores, sensações puramente novas. Experiencia a carne. Respira o ar, sente sono, adormece. Vive aquela paixão com toda a intensidade, se aventura numa existência de inúmeras sensações. E eu, que tenho me encontrado numa luta constante contra as imperfeições da vida; que me vejo sonhando com um mundo onde apenas o amor, as boas virtudes, a ordem e a paz reinassem; que queria ser como um anjo, que desconhece tudo aquilo que nos tira o chão – as dores, os medos, o terror de perder... me deparo com a história de um anjo que quer o exato oposto: deseja ser como eu. E mais. Um anjo que aceita paga o alto preço da condição humana, que é estar ao sabor dos inconstantes humores da vida.
Não por acaso, no dia seguinte desse encontro de amor na carne, ela morre. Penso num átimo: “viu como foi louco de abrir mão dessa vida de anjo?” Ele se desespera, passa por um inferno, se questiona sobre se Deus o está punindo, mesmo sabendo que isso não passa de ilusão. Sente raiva, se revolta, vive o outro lado da humanidade – aquele que contrapõe as alegrias de forma tão intensa. E – por nenhum segundo que seja – Seth se arrepende da sua decisão: “Eu preferiria sentir o cheiro dos seus cabelos uma só vez, beijá-la uma só vez, sentir um único toque da sua mão do que passar a eternidade toda sem isso”.
Algo em mim entende esse pensamento, concorda e silencia. Dia após dia ele vai se levantando daquela dor. Experimenta novas sensações, dá valor à vida que conquistou. Seja no provar de um pêra suculenta, ou num mergulho no mar. Sente a correnteza das ondas, a vibração do ar nos seus pulmões, salta, grita, sorri. E vive. Para ele, valeu cada segundo. E ainda vale. Será que preciso ser um anjo para reconhecer o valor da existência enquanto ser humano?
Viver parece mesmo ser uma experiência única. É uma grande aventura para a qual temos que nos entregar. Ou então passamos o resto dos nossos dias debaixo da cama, escondidos de situações adversas. Experenciar é viver, conhecer, se aventurar. Aprender, cair, levantar, ver a beleza, escolher enxergá-la. É uma perspectiva única e intensa, capaz de ensinar tanto e de forma tão definitiva. Respirar, sentir, amar. Gerar uma vida, dar oportunidade para que um outro ser conheça esse mundo repleto de sensações. E, no final, olhar para trás e ter certeza de que valeu cada segundo. Lembrar de tudo que sentiu, que viveu, as delícias, as loucuras, os dissabores. Tudo É! Tudo realmente É nessa incrível aventura do viver. Então que eu viva e deixe viver!
Escrito por Dani Guima às 10h24
[]
[envie esta mensagem]
[link]
[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]
|