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Filha querida...
Faltam poucas semanas para você chegar a esse mundo. Nesses poucos meses que estamos convivendo já aprendi tanto com você... Aprendi muito sobre mim mesma, pois você é espelho. Projeto sobre sua presença meu amor e minhas qualidades, mas também meus medos e falhas. Nessa aventura tão recente, você já tem sido de uma maestria tão grande, que mal consigo compreender... No começo, embora eu e seu pai estivéssemos torcendo e esperando pela gravidez, vivemos um breve momento de susto. Desejávamos sua presença com todo o nosso coração, mas em nossas mentes pairavam diversas perguntas relativas a nós mesmos: “Vamos saber educá-la? Seremos bons pais? É seguro viver nesse mundo?”
Tudo isso, filha, porque gostaríamos de dar sempre o melhor para você. Em nossas fantasias mais infantis, esse planeta seria perfeito, multicolorido e cheio de coisas boas somente para te alegrar. Mas, por hora, não é assim que o mundo gira, querida menina... O anúncio da sua chegada, portanto, fez crescer e amadurecer em nós a idéia de que, mesmo diante das incertezas, cada segundo da vida é precioso. Espairecemos e tivemos a clareza de que “o melhor ideal” não existe. Porém, pode ter certeza: vamos sim, filha, te dar o melhor – porém, um “melhor real”, “o melhor que pudermos”, dentro de nossos limites e possibilidades. É isso que lhe prometemos com todo a nossa alma.
Compreendemos, eu e seu pai, que somos tão somente instrumentos do Universo para te trazer ao mundo. Não somos seus donos, você não nos pertence. Seremos, sim, seus ‘tutores’ durante os primeiros anos da sua existência-aprendizado. Vamos te acompanhar na sua aventura pelo planeta-escola – planeta esse que também é cheio de imperfeições, pequenina. Mas, tenha em mente que todas elas sempre trazem consigo a capacidade de nos ensinar grandes lições. Não tem maneira de te poupar da dor, de sofrimentos e de quedas. No entanto, temos como te ensinar a aprender nas adversidades e, nelas, se fortalecer, adquirir novos conteúdos e habilidades.
Estamos há mais tempo do que você nessa caminhada. E, por isso, é nosso dever te ensinar, te cuidar, te proteger. Mas lembre-se, filha querida: assim como você, também somos seres humanos. Também estamos na nossa existência-aprendizado. Portanto, estamos também em construção daquilo que um dia seremos. Temos certeza que, nessa empreitada, a sua presença será repleta de ensinamentos valiosos. E, por isso, desde já, lhe somos muito agradecidos. Graças, filha!
Nesse seu caminhar, esperamos te ensinar e, junto contigo, aprender e apreender muitas lições:
... que o propósito de viver nesse planeta tem muito pouco a ver com ‘estar seguro’ e ‘viver apenas coisas boas’;
... que a nossa realidade externa é reflexo do que somos por dentro. Portanto, se nós queremos um mundo cada vez melhor, vibremos então nesse sentido, e ele assim será;
... que somos Um, filha. Sei que parece esquisito, mas estamos aqui para entender que tudo que fizermos tem uma repercussão na vida de todos os demais. E vice-versa. Assim como, tudo que você um dia vier a ser, será fruto de cada experiência, de cada conversa, de cada pessoa que tiver tido a alegria de passar pelo seu caminho;
... que nessa vida você vai ter momentos bons e ruins, e que é possível tirar o melhor de tudo sempre – mesmo dos tropeços, que externamente se mostrem ruins. Afinal, filha, “it’s all about love”. Por trás de todos os aparentes erros, existe um ser que deseja, sobretudo, amar e ser amado. A força que move o Universo é o amor. Quem erra, erra tentando encontrar e sentir esse amor. Portanto, o melhor que podemos fazer é aprender a ver além das aparências grosseiras dos fatos desagradáveis, e perceber que a busca é sempre uma só: amor! Por mais que as pessoas deturpem o sentido disso, essa é a única energia que existe;
... que nós, filhinha amada, somos esse amor. Nós somos um só ser. Você vai ouvir falar de ciúmes, insegurança, medo de perda... mas vai ouvir falar também que precisamos nos liberar para entender que tais sentimentos não têm sentido algum. Afinal, como podemos ter medo de perder alguém, se nós somos um? “Somos parte de cada ser que aqui habita e, sendo assim, não necessitamos ter medo de estar separados de nada nem de ninguém, pois estamos aqui, todos juntos, somos UM!”;
... que existe algo muito maior do que nós, que é esse amor. Ele recebe muitos nomes, mas é uma coisa só. E é nele que precisamos confiar nossas vidas. Eu espero que, com sua presença, eu possa aprender a me entregar a esse poder, cada vez mais;
... espero, por fim, filha, poder te acompanhar nessa linda jornada, sempre com respeito e reverência ao seu ritmo, ao seu tempo, à sua forma de ver a vida e a todas as escolhas que vier a fazer. Rir contigo, sentir alegria com as suas conquistas, te ouvir, te abraçar nos momentos de possível imprevisão, estar contigo e ser, também, um espelho para você. Já te amo com todo o meu coração, Rafaela!
Sê bem-vinda! Amém!
Escrito por Dani Guima às 16h47
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A Dor de Crescer
Reli vários dos meus textos anteriores e vi o quanto um tema é sempre recorrente: a busca neurótica que tenho pela perfeição. Passo vários momentos, escrevo várias reflexões e palavras procurando me convencer de que viver em perfeição não é possível. Antes, pelo contrário, faço de tudo para mostrar a mim mesma que é uma ilusão, uma limitação na forma de ver a vida. Dou de cara, mais uma vez, com a pequena ditadora que reside em mim, a criança ferida, mimada e teimosa. Quanta resistência, quanta dor ela me causa!
Tenho vivido feito escrava dessas exigências infantis. Num primeiro momento, achava que o mundo deveria ser perfeito. Inclusive assumo que me formei em jornalismo, pois acreditava que, nesta profissão, poderia contribuir – nem que fosse um pouco – para esse sonho megalomaníaco se concretizar. Tentei por algum tempo e desisti. Fui aos poucos percebendo que a sociedade não se cura como um todo, mas sim de forma individual. O verdadeiro trabalho é a mudança interna, em cada um de nós. Desisti de querer fazer justiça nas denúncias e matérias que escrevia, nos lugares que ía, onde trabalhava, ou nas rodas de conversas que freqüentava. Entendi que não é assim que funciona. Foi um alívio! Cheguei a pensar que estava curada...
Mas o círculo de exigências foi se fechando, e essa demanda infantil passou a se restringir às pessoas mais próximas de mim. Ao meu marido, aos meus amigos mais próximos, à minha família. E, quanto maior a proximidade, mais essa dor voltou a doer. Dou-me conta do quanto essa criança ainda fala alto e, cada vez mais, tem necessidade de gritar. Sinto-me ridícula, reconheço a parte déspota que existe em mim.
Porém, já não quero me esconder mais desta descoberta. Se o primeiro passo para se livrar de algum aspecto-sombra é mesmo o de sair da negação, me lanço com fé nesta caminhada. Quero chegar ao fim dela de braços dados com minha humanidade. E com a humanidade dos outros também. Especialmente dos mais próximos a mim, daqueles que mais atiçam a minha criança ferida, mimada, raivosa e vingativa.
Quero ver essa menina assustada crescer e desabrochar. Florescer em flores e frutos, como uma linda árvore que lança suas raízes num terreno de compaixão, aceitação e entendimento. Imagino a criança birrenta abrindo espaço para uma moça-mulher-borboleta. No meu sonho, ela sai de cena e abre alas para um novo ser cujas expressões se revelam em confiança, segurança e firmeza. A moça-mulher-borboleta sabe que dá conta de viver na dualidade. Vê oportunidade nas adversidades da vida. Aprende com as quedas. Sacode a poeira e segue firme adiante, com a certeza de que o Universo é amigável com ela. E com a esperança de que, de fato, ela merece viver de forma plena, leve e simples.
Por agora, navego apenas no vislumbre desse lindo sonho-cenário. Mas já consigo sentir seus cheiros doces, ouvir suas gargalhadas honestas, tatear seus macios lençóis de seda. Acredito e peço a Deus que me ilumine, me dê forças e sabedoria para criar essa realidade. Partilho aqui a minha dor de ainda não ser, com a impressão de que me sinto mais leve no compartilhar. E, também, com a pretensão de ser útil aos que me lêem.
Expresso, logo vivo.
Escrito por Dani Guima às 15h45
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