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Limpeza por meio da humildade...
O orgulho, com toda a sua carranca de empáfia e auto-suficiência, é puro disfarce para o medo que temos de contar com alguém para passar por um momento de dificuldade e, no minuto seguinte, perceber que aquela pessoa não está mais lá para nos apoiar. Esse medo de ter apoio num momento e, no seguinte, não ter mais, cria em nós uma defesa bastante óbvia: passamos a nos portar diante da vida como pessoas orgulhosas de saber que conseguimos nos virar sozinhas, que damos conta do recado e não precisamos do apoio de ninguém para passar pelas situações.
Aprender a passar pelas situações só, pode tornar-se uma defesa bastante útil, pois nos provê com ferramentas e saídas criativas, eficazes mesmo, para que seja possível superar as inconstâncias de um período adverso qualquer. A questão é quando essa defesa passa a ser uma constante no comportamento e entra no automático do nosso modus-operandis. Ao invés de escolhermos o momento apropriado para usar tal defesa, ela é que passa a nos controlar. Quando percebemos, estamos agindo de forma repetitiva, e em circunstâncias em que não há mais necessidade para tanto. Ou seja, as situações externas mudam e continuamos agindo como se não fosse seguro confiar em ninguém. Isso passa a ser empecilho para viver relações com proximidade e entrega.
Percebi como essa dinâmica atuava na minha vida há poucos anos. Toda a auto-suficiência que aprendi a ter se mostrava para o mundo, por meio de minha atitude, como orgulho e empáfia para alguns – e como eficiência e força, para outros. A forma de falar, sempre firme, como se tudo estivesse sempre sob controle, com ares de dona-da-situação trazia uma falsa imagem de segurança e, principalmente, a impressão mentirosa de que eu me bastava. Esse comportamento passou a ser tão corriqueiro, que até eu mesma passei a acreditar nesse traço da minha personalidade: formou-se a imagem-fantasia de uma mulher forte, poderosa e segura. Pura falácia...
Há tempos venho tomando consciência dessa defesa e, gradualmente, aprendendo a baixar a guarda, a relaxar, a confiar mais na vida e nas pessoas que me cercam. Nas últimas semanas, porém, um lindo bebê chegou à minha vida. Nasceu Rafaela, minha doce, querida e amada filha. E, com ela, me vi diante de uma super-acelerada nesse processo de perceber e ver o quanto me faz mal viver constantemente dentro da armadura do orguho.
Esse tem sido um momento duro, impactante, transformador, perturbador. Eu não esperava passar por isso. Justo agora? A vida é mesmo irônica... Saibam todos: durante toda a gravidez de Rafaela, eu nutria pensamentos e fantasias maravilhosas sobre ser mãe. Imaginava momentos ternos, tranquilos e recompensadores – do tipo de propagandas de fraldas infantis. Vislumbrava a mim mesma como uma mãe calma, segura, dona das situações – enfim, tirando de letra o ofício da maternidade. Em menos de uma semana do nascimento, essa ilusão caiu por terra e a realidade tem sido bastante diferente desse sonho...
A chegada de um filho corresponde à chegada de um novo e totalmente diferente estilo de vida – especialmente quando trata-se do primogênito. O cotidiano muda ra-di-cal-men-te, no sentido mais literal dessa palavra. A gente se vê diante de um ser que precisa de você 100% do tempo, e que manifesta isso por meio de choro e gritos. Essa é a única comunicação que ele sabe fazer, e não é fácil se adequar a ela. Ver seu filho chorando e não saber o que significa pode ser algo muito angustiante. Além disso, toda a sua vida profissional, social, seu tempo para relaxar, suas manhãs preguiçosas do fim de semana – tudo isso lhe é arrancado bruscamente, de uma hora para outra.
A isso soma-se o delicado processo da amamentação, que é pura doação, um ato de amor. No começo, dói, machuca, assusta. Seu corpo está totalmente diferente – no meu caso, operado numa cesárea. Você fica com os órgãos soltos na barriga, e sangra por, pelo menos, 20 dias seguidos. Dorme pouco e de forma caótica. Isola-se do mundo durante o resguardo. Não bastasse tudo isso, depois de passar pela primeira semana heroicamente, de olhos fechados para todos esses incômodos e novidades, apaixonada pela filhota e seus encantos, vem a tal queda de hormônios. Todas as químicas internas que durante a gravidez estavam nas alturas, caem subitamente dias após o parto. Comigo, foi com uma semana. E veio o blues pós-parto, para não dizer, depressão.
Toda aquela imagem orgulhosa de mãe-poder que eu nutri durante toda a gestação caiu por terra. Comecei a sentir desespero, agonia, medos intensos. Ouvir o choro da neném me causava (e, às vezes, ainda causa) frio na barriga. Nos primeiros dias dessa tristeza eu fingi que nada estava acontecendo, não conseguia admitir para mim mesma que não estava dando conta sozinha. Não queria precisar de ninguém... ficava pensando: “Como assim, como eu não vou dar conta de ser mãe e viver esse sonho que aguardei por tanto tempo?” Aí vem a culpa, a sensação de inadequação, a impressão de fracasso: “Que tipo de mãe sou eu?” Fiquei fritando minha alma com esses pensamentos e questionamentos até que desabei. É químico, físico, não dá para controlar essas sensações. Portanto, não há culpados, julgados e condenados.
No meio dessa queda, um grito de socorro: por favor, preciso de apoio urgente e agora! Marido, mãe, sogra, psicóloga, amigas... me acudam!!! Corre e toma floral. Corre e faz acupuntura. Me entreguei aos cuidados dos outros, caí, me joguei do alto da minha torre de comando, me despi de todo orgulho e fiz uma limpeza por meio da humildade. Gente, eu preciso de vocês! Eu preciso precisar de vocês! Aquela parte de mim auto-suficiente não tem mais espaço nesse momento. Eu me rendo, eu preciso, eu entendo que ninguém é uma ilha. Percebo, devagar, que posso confiar novamente, que posso precisar e que posso contar com as pessoas. Morre Mulher-Maravilha independente! Nasce Mulher-Humana inter-dependente! Aprendo, humildemente, a contar com as pessoas ao meu redor, a confiar que o Universo sempre me trará circunstâncias e provisões para todas as minhas necessidades, momento a momento, dia após dia.
Rafaela já chega em minha vida com esse ensinamento: “Mamãe, confia na vida, nas pessoas e no mundo. Se entrega e aprende, finalmente, a contar com os outros!”. Nesse exercício de humildade, apenas abaixo a cabeça e consinto. Chegou mesmo a hora de aprender a receber!
Escrito por Dani Guima às 12h10
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