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    Passagens

    O ritual da dor do parto tem um porquê, tem um significado forte de passagem de um estado a outro. Dizem que a vivência das dores transporta a mulher para um estado de consciência alterado, no qual se torna mais fácil viver a ruptura. Isso também serve para o homem que a assiste e acompanha todo o processo do nascimento. Guardadas as devidas proporções, é tão impactante para o pai quanto para a mãe. O puerpério que, segundo especialistas, dura cerca de um ano, é o período para consolidar essa passagem para um novo status-quo.

    Para quem não viveu um parto natural e submeteu-se a uma cesárea rápida e prática, essa ruptura com o antes parece ocorrer de forma mais lenta. A falta da vivência do forte ritual de passagem do parto – com suas dores e o tempo necessário para que as contrações quebrem as amarras de controle da mãe e ela finalmente se abra em dilatação para a chegada do rebento – torna menos fácil a ruptura dos pais com o modo de existir anterior. O rito do parto parece acelerar o desapego à condição infantil de filhos, daqueles que apenas recebem e são nutridos por seus próprios pais. E, por outro lado, é experiência que fortalece e prepara os novos pais a aceitarem e abraçarem a condição de passarem a ser os doadores, os que nutrem, ensinam e cuidam.

    O parto partiu, separou – o que era um, agora é dois. E um elo precisa ser criado, formado, construído. O que une mãe e filha fora da barriga é a relação que se estabelece de amor, de parceria, de cooperação, de vontade e desejo de viver junto. Para os pais, um novo molde: morrem os filhos que neles residiam, para nascerem os papéis de pai e mãe. São muitos os partos que rondam o nascimento de uma criança: deixar morrer a mulher-filha, para deixar viver a mulher-mãe; deixar morrer o homem-filho, para deixar viver o homem-pai. Outra vez, atravessamos o doloroso processo de vida-morte-vida-morte-vida...

    Tenho me empenhado em aprender que existir é viver sucessivas passagens, e na dor dessas transformações, saber aproveitar a experiência para evoluir, criar competências e gozar com os prazeres que a nova condição nos traz.

    Desde bem pequenos vivemos muitas dessas passagens: quando nos percebemos como indivíduos aos nove meses de idade, quando vamos para a escola pela primeira vez, quando vivemos as fortes mudanças da adolescência, quando arrumamos um emprego e passamos a pagar nossas próprias contas, quando saímos da casa dos pais, quando estabelecemos um relacionamento amoroso sério, quando moramos junto com alguém, quando casamos, quando temos filhos, etc. Todas essas passagens parecem ser repetições da maior de todas as passagens, que é o nascimento. Como alguém que vai escrevendo por cima de uma primeira palavra escrita, várias outras palavras, mas sempre com aquela base principal – a ruptura, a passagem, a transformação.

    É momento de dizer adeus aos confortos da forma antiga de vida, pois o novo se apresenta e sobre nós exerce um forte chamado.

    Para exemplificar, é como quando deixamos o conforto das contas pagas, roupa lavada e comida na mesa da casa de nossos pais, para viver a delícia da conquista do próprio espaço – mas que vem acompanhada de novos deveres, como lavar, cozinhar, passar, cuidar, abastecer. Em certa medida, dói sair do conforto anterior, bate um certo medo, um certo banzo, um certo abandono. Saudade dos dias em que passava comendo biscoito e assistindo sessão da tarde, despreocupadamente. Em pouco tempo, no entanto, encontramos nossa forma individual de gerenciar o novo lar. Sabemos direitinho o que comprar no supermercado, nos divertimos chamando os amigos para uma visita, amamos andar pelados pela casa, descobrimos as delícias da privacidade e da individualidade. O luto pela condição anterior cessa e dá lugar ao amadurecimento e à vivência, com naturalidade, da nova maneira de existir.

    Assim é com todas as passagens. Entre todas elas, a mais intensa (talvez porque seja a do momento): aprender a ser mãe.

    Ainda vivo o luto e uma relativa saudade da antiga condição de apenas “mulher-filha”, da pessoa que por anos eu fui, que estava submersa no conforto da individualidade, da liberdade e do egoísmo saudável. Mas que já andava entediada da mesmice, sem saber ao certo o que faltava, o que realmente lhe movia e motivava. Vivo o desconforto e o frigir das transformações intensas. Mas também vivo a alegria pela construção da “mulher-mãe” em mim. Vivo o regozijo dos sorrisos, dos balbucios, dos trejeitos e do novo em minha vida. Vivo mãe de Rafaela. Vivo-morro. Morro-vivo.

    Ainda bem!


    Escrito por Dani Guima às 09h37
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    Filhos...

    Filhos?
    Melhor não tê-los!
    Mas se não os temos
    Como sabê-lo?
    Se não os temos
    Que de consulta
    Quanto silêncio
    Como os queremos!
    Banho de mar
    Diz que é um porrete...
    Cônjuge voa
    Transpõe o espaço
    Engole água
    Fica salgada
    Se iodifica
    Depois, que boa
    Que morenaço
    Que a esposa fica!
    Resultado: filho
    E então começa
    A aporrinhação:
    Cocô está branco
    Cocô está preto
    Bebe amoníaco
    Comeu botão.
    Filhos? Filhos
    Melhor não tê-los
    Noites de insônia
    Cãs prematuras
    Prantos convulsos
    Meu Deus, salvai-o!
    Filhos são o demo
    Melhor não tê-los...
    Mas se não os temos
    Como sabê-los?
    Como saber
    Que macieza
    Nos seus cabelos
    Que cheiro morno
    Na sua carne
    Que gosto doce
    Na sua boca!
    Chupam gilete
    Bebem xampu
    Ateiam fogo
    No quarteirão
    Porém, que coisa
    Que coisa louca
    Que coisa linda
    Que os filhos são!

    (Vinicius de Moraes)

    Escrito por Dani Guima às 10h21
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