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Ode ao peito

Décimo mês: chegou a hora de a Rafaela parar de se alimentar do meu leite. Foi um período de enorme aprendizado para mim. A intensidade dos primeiros momentos, o estabelecer de um vínculo forte, que recebe essa mãozinha-na-roda da mãe-Natureza... ao sentir o leite saindo de você, alimentando seu bebê, só mesmo Freud para explicar todo o pano-de-fundo metafórico que envolve esse ato. É profundo, é amor, é entrega. É alimento, é carinho, é nutrição emocional. É vínculo que se forma por meio da doação.
No começo, sentia-me esvair no ato. Isso, por um tempo, desestabilizou muitas partes de mim. Conseguiria me dar para a Rafaela sem me desconstruir, sem me despedaçar, sem me anular? A visão ideal que eu tinha de ser uma mãe perfeita – a mãe que na minha fantasia nunca falta, nunca falha – criava uma pressão por metro cúbico de mim que cortava meu ar. Respirava ofegante e tinha medo de não dar conta. O vínculo que se estabelecia ali, com tanta intensidade, tirava o meu chão e provocava todos os meus bichos-medos de estabelecer relações próximas. Que dirá, uma ligação tão definitiva! Afinal, não existe ex-filha, certo?
E daí, o milagre aconteceu. A vida, nesse momento, se revelou em mim como grande professora, dizendo que as lições precisam ser apreendidas com calma, leveza e vivendo um dia de cada vez. Fui me cuidando, me tratando, relaxando, aprendendo a delegar. Fui despedaçando as ilusões e tecendo uma colcha de amor, com retalhos de cada novo dia vivenciado com a Rafaela. A amamentação foi ficando cada vez mais leve, tranqüila e, por que não, prazerosa! Sim, era o nosso momento, olho no olho, entrega pura.
Foi aí que a Rafaela deu-me a oportunidade de perceber que, doando, eu não me esvaziava. Ao contrário, preenchia meu corpo e minha alma com ainda mais amor e força. Eu compreendi que tenho muito a dar, e que isso só me faz bem e me mantém em contato com a força da vida que alimenta a todos nós – quando dou, eu recebo. E me tornei um pouquinho mais inteira, e mais mulher. Porque não há nada tão feminino quanto o poder da reprodução, o gerar uma vida e, de quebra, ter a alegria de alimentá-la. Foi realmente uma oportunidade-presente para mim!
Às mães que não puderam/quiseram/tiveram a chance de amamentar, faço a ressalva-liberação de que não há regras! Mulheres que não amamentam podem e estabelecem os mesmos vínculos de outras maneiras. Mulheres que não têm filhos também formam sua identidade e força feminina com outras soluções. Apenas rendo minhas homenagens à mãe-Natureza, que nos dá essa forcinha boa na hora de estabelecer vínculos com nossos filhos. Imagino que essa mesma força dá às mães que têm parto normal a possibilidade de viver no corpo a transição de mulher-filha para mulher-mãe. Eu que não tive um parto natural consegui passar por essa transição muitos dias depois do nascimento, de outra forma. A vida, ainda bem, sempre encontra o seu caminho...
O desmame também tem ensinado novas lições. Não há perda, e sim reconstrução. A Rafaela, suavemente, foi mandando todos os recados possíveis de que era chegada a hora. Brincava no peito, mamava pouco, largava por qualquer coisa. Não pedia mais, esquecia. Era a hora dela. Mas seria a minha? Levei um pouco de susto, que veio com um misto de alívio também. Porque o desmame não deixa de ser uma pequena independência. Mas... ai... aquele contato tão íntimo, tão intenso, tão próximo. Deixar essa proximidade toda de lado traria um certo... vazio? Não, claro que não. Não me colei a essa sensação. Era apenas mais uma travessia-passagem da vida provando que tudo passa. Novos vínculos, sim! Novos contatos, novas palavras, abraços e gargalhadas. Dançamos juntas, começamos a conversar as primeiras sílabas, linguagens diferentes – mas tão ternas e intensas quanto uma boa mamada!
Um brinde a nós, Rafaela! Valeu cada gole, filha!
Muitas graças pela oportunidade!
Escrito por Dani Guima às 17h44
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Abaixo a ditadura da mulher-maravilha!!

Sou a Miss Imperfeita
Texto da Martha Medeiros publicado na Revista do O Globo:
'Eu não sirvo de exemplo para nada, mas, se você quer saber se isso é possível, me ofereço como piloto de testes. Sou a Miss Imperfeita, muito prazer. Uma imperfeita que faz tudo o que precisa fazer, como boa profissional, mãe e mulher que também sou: trabalho todos os dias, ganho minha grana, vou ao supermercado três vezes por semana, decido o cardápio das refeições, levo os filhos no colégio e busco, almoço com eles, estudo com eles, telefono para minha mãe todas as noites, procuro minhas amigas,namoro, viajo, vou ao cinema, pago minhas contas, respondo a toneladas de e-mails, faço revisões no dentista, mamografia, caminho meia hora diariamente, compro flores para casa, providencio os consertos domésticos, participo de eventos e reuniões ligados à minha profissão e ainda faço escova toda semana - e as unhas! E, entre uma coisa e outra, leio livros.
Portanto, sou ocupada, mas não uma workaholic. Por mais disciplinada e responsável que eu seja, aprendi duas coisinhas que operam milagres. Primeiro: a dizer NÃO. Segundo: a não sentir um pingo de culpa por dizer NÃO. Culpa por nada, aliás. Existe a Coca Zero, o Fome Zero, o Recruta Zero. Pois inclua na sua lista a Culpa Zero. Quando você nasceu, nenhum profeta adentrou a sala da maternidade e lhe apontou o dedo dizendo que a partir daquele momento você seria modelo para os outros. Seu pai e sua mãe, acredite, não tiveram essa expectativa: tudo o que desejaram é que você não chorasse muito durante as madrugadas e mamasse direitinho. Você não é Nossa Senhora. Você é, humildemente, uma mulher.
E, se não aprender a delegar, a priorizar e a se divertir, bye-bye vida interessante. Porque vida interessante não é ter a agenda lotada, não é ser sempre politicamente correta, não é topar qualquer projeto por dinheiro, não é atender a todos e criar para si a falsa impressão de ser indispensável. É ter tempo. Tempo para fazer nada. Tempo para fazer tudo. Tempo para dançar sozinha na sala. Tempo para bisbilhotar uma loja de discos. Tempo para sumir dois dias com seu amor. Três dias. Cinco dias! Tempo para uma massagem.. Tempo para ver a novela. Tempo para receber aquela sua amiga que é consultora de produtos de beleza. Tempo para fazer um trabalho voluntário. Tempo para procurar um abajur novo para seu quarto. Tempo para conhecer outras pessoas. Voltar a estudar. Para engravidar. Tempo para escrever um livro que você nem sabe se um dia será editado. Tempo, principalmente, para descobrir que você pode ser perfeitamente organizada e profissional sem deixar de existir.
Porque nossa existência não é contabilizada por um relógio de ponto ou pela quantidade de memorandos virtuais que atolam nossa caixa postal. Existir, a que será que se destina? Destina-se a ter o tempo a favor, e não contra. A mulher moderna anda muito antiga. Acredita que, se não for super, se não for mega, se não for uma executiva ISO 9000, não será bem avaliada. Está tentando provar não-sei-o-quê para não-sei-quem. Precisa respeitar o mosaico de si mesma, privilegiar cada pedacinho de si. Se o trabalho é um pedação de sua vida, ótimo! Nada é mais elegante, charmoso e inteligente do que ser independente. Mulher que se sustenta fica muito mais sexy e muito mais livre para ir e vir. Desde que lembre de separar alguns bons momentos da semana para usufruir essa independência, senão é escravidão, a mesma que nos mantinha trancafiadas em casa, espiando a vida pela janela...
Desacelerar tem um custo. Talvez seja preciso esquecer a bolsa Prada, o hotel decorado pelo Philippe Starck e o batom da M.A.C... Mas, se você precisa vender a alma ao diabo para ter tudo isso, francamente, está precisando rever seus valores. E descobrir que uma bolsa de palha, uma pousadinha rústica à beira-mar e o rosto lavado (ok, esqueça o rosto lavado) podem ser prazeres cinco estrelas e nos dar uma nova perspectiva sobre o que é, afinal, uma vida interessante'.
Escrito por Dani Guima às 17h03
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