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    Que outro? O outro que não existe!

    Estou ficando cada vez mais fã da Regina Teixeira da Costa (reginacosta@uaivip.com.br). Vejam que belíssimo texto!

    Continuamos vivendo e buscando encontrar uma maneira de nos posicionar de forma perfeita aos olhos do outro e nessa busca nos perdemos

    Algum dia você já esteve intimidado, ameaçado, acuado, culpado diante de alguém? Provavelmente, sim, como quase todas as pessoas. Tudo que significa relacionamento ao mesmo tempo sugere cuidados, pois toda vez que entramos em contato estamos pisando em terreno minado. Nunca se sabe o que virá do outro, nem o juízo que fará sobre nós, nem da impiedade, nem da intolerância, da agressividade da qual podemos ser alvo. E o que talvez seja pior que tudo é não poder desfazer mal-entendidos. E eles sempre estão presentes nos espaços de convivência.

    Motivos nunca hão de faltar. O sujeito é sempre espinhoso. Espinhos sempre estarão espetados na carne para nos lembrar que não estamos aqui apenas para nos divertir. Afinal, quem sabe os porquês de estarmos aqui? Poderíamos aceitar as mais diversas versões religiosas, filosóficas, existenciais como resposta para nossas inquietações e inseguranças, porém, nenhuma resposta cabal vem em nosso auxílio. Enquanto isso, continuamos vivendo e buscando encontrar uma maneira de nos posicionar de forma perfeita aos olhos do outro e nessa busca nos perdemos.

    Desde o início aprendemos a obedecer àqueles que apararam nossa prematuridade. Ai de nós se não existisse esse alguém, seria impossível sobreviver. O problema é que, depois, esse mesmo outro, antes tão necessário, conserva um poder enorme e passamos a vida sofrendo por causa dele.

    Vivemos angustiados imaginando o que pensam sobre o que somos e fazemos. Colocamos projetivamente nas pessoas com as quais convivemos o poder conferido anteriormente àquele primeiro cuidador. Daí pra frente a angústia surge diante do enigma que é este outro. Tentamos captar nos olhares aquilo que é esperado, mas como falta uma resposta definitiva, com medo da reprovação e sua consequência, o abandono, a perda, entramos em parafuso!

    Ao fim de uma análise, atravessamos o medo do que colocamos no “grande outro”. Atribuímos significados próprios ao olhar do outro sobre nós e, assim, quando descobrimos no outro um juízo atributivo inventado e temido, entendemos nossa solidão. E instaurando no outro tamanho poder podemos inclusive culpá-lo, além de temê-lo, terceirizando tudo que é, ou deveria ser, de nossa única e máxima responsabilidade.

    Pode parecer melancólico, mas é libertador saber que ninguém poderá responder à nossa ânsia de acolhimento, a essa nossa demanda de amor, nosso pedido de socorro. Sabendo disso paramos de buscar. Entendemos que não existe nenhum lugar para tal resposta, ninguém a possui. Nunca sabemos o que ocorre do lado do outro, talvez nem mesmo ele saiba e esta é a causa maior de nossa divisão. Somos partidos pela ignorância sobre nós.

    Nem mesmo existe este outro pronto para nos doar seu ser, para nos amparar e evitar assim que caiamos no mais profundo desamparo e até mesmo em devastação. Ainda assim temos alguma esperança e mesmo fé que o outro possa nos completar, até brigamos com nossos próximos quando não somos atendidos, quando nos sentimos desvalorizados, relegados a segundo plano. Quantas vezes vimos casais se desentenderem porque um não disse ou fez o que o outro esperava? São diferenças causando insatisfações, antagonismos indispensáveis devido a posições e opinião e mesmo na igualdade discute-se por dificuldades de expressão.

    Fomos objeto de desejo deste outro original, o que fui e o que sou é alguma coisa que nem mesmo ele sabe. O desejo dele é o primeiro da nossa estrutura, mas nem mesmo ele sabe o que fazer com isso, o que fantasiamos a esse respeito é simples criação a partir desse ponto. Por isso podemos dizer que grande parte de nossa angústia diante do outro é simples projeção do que mais tememos em nós. Isto não quer dizer que o outro não nos importa a partir disso, mas que pode ser relativizado pois seu olho é tão cego quanto as certezas que temos sobre nós.



    Escrito por Dani Guima às 11h38
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