Meu Perfil
BRASIL, Mulher



Histórico


    Votação
     Dê uma nota para meu blog


    Outros sites
     Responsabilidade Social.com
     Blogjob
     O Admirável Mundo Novo da Lulu
     Revelações de minh'Alma!


     
    Pra Gente ser Feliz


    A ditadura filial

     

    Quando nascem, as crianças têm seus pais como provedores de tudo – de comida, carinho, conforto, cuidados. Passam os anos, a independência chega a conta-gotas, mas de forma definitiva. Aprendem a falar, a ir ao banheiro sozinhas, a tomar banho, a ler, a se comunicar com o mundo. Chega a adolescência, a faculdade, o trabalho: viram adultos. Durante esse período, os pais fizeram tudo que podem, tanto do ponto de vista material, quanto emocional.

     

    Acostumados a isso, os filhos não compreendem que esse papel de tutores que os pais cumprem tem um começo, um meio e um fim. O título de parentesco, é claro, será referência sempre mantida com muito carinho. Porém, um ser humano que realmente deseja evoluir, se emancipar e se responsabilizar pelos próprios atos, precisa ir além e perceber que – chegadas a emancipação e a maturidade – os pais, os tutores disponíveis de toda hora, tornam-se companheiros, irmãos na jornada da vida.

     

    Ontem, ao ler uma página do livro “Nosso Lar”, encontrei frase ressonante que diz: “Na Terra, quase sempre, as mães não passam de escravas, no conceito dos filhos. Raros lhes entendem a dedicação antes de as perder”. Quando temos nossos próprios filhos, conseguimos compreender essa afirmativa numa outra dimensão. Costumamos projetar e esperar de nossos pais tanta perfeição, tanta presença, lançar sobre eles tantas expectativas que, alguém com um olhar mais atento poderia rotular esse processo facilmente de “ditadura filial”. Mas, quando enfim somos nós próprios os pais, vivenciamos o outro lado da moeda de passarmos a ser idealizados, exigidos e cobrados. Por muitos anos, essa postura se justifica dadas as necessidades da infância e da adolescência. Mas não se justifica para sempre. Não mesmo.

     

    Queremos fazer o melhor pelos nossos filhos sempre, mas nos deparamos com nossa humanidade, com o cansaço e as tantas impossibilidades de agir e sentir da forma que gostaríamos. Aí, nessas horas, redimensionamos todas as expectativas idealistas que tínhamos sobre nossos pais, os humanizamos e os percebemos como mais um de nós – simplesmente um ser que está nesse planeta tal e qual qualquer pessoa com a finalidade de experimentar, acertar, errar, cair, levantar, enfim, aprender.

     

    Alguns estudiosos dizem que levamos quatro ciclos de sete anos para rompermos, em definitivo, o cordão umbilical. A cada sete anos, uma nova emancipação e, aos 28 anos, a liberação final. A começar desse momento, estamos lado a lado de nossos pais, e não mais sob seu comando. Digo isso, claro, em circunstâncias gerais, normais, deixando de lado os casos em que inversões acontecem, ou que pais e filhos se apegam aos seus papeis e mantêm o laço por longos anos a fio.

     

    Quando conseguimos, finalmente, compreender a irmandade humana, e encaixar nossos pais nessa turma, ocorre alquimia das mais interessantes. As expectativas caem por terra e, junto com elas, todas as frustrações, os desagrados, os abandonos, os medos, as projeções infundadas. Vamos além: aceitamos as impossibilidades dos pais e suas falhas. Entendemos que fizeram o que deram conta. Enxergá-los como aprendizes nesse planeta, tais como somos, é liberação altamente capacitante, uma vez que nos coloca no nosso lugar de poder.

     

    Como diz o livro, essa compreensão é para poucos. Afinal, muitas vezes é mais fácil, mais cômodo deixar nossas vidas, responsabilidades e pesos das decisões nas mãos dos outros. Ainda mais quando temos à nossa disposição, a justificativa prá-lá-de-batida de serem poderes de propriedade dos nossos pais, aqueles que nos deram a vida e a quem devemos tanto.

     

    Devemos sim, claro: muita gratidão, respeito e reconhecimento. Nada mais! O poder de fazer nossa vida, de escrever as páginas do nosso livro deve ser só nosso a certa altura da existência. Isso só faz bem. Não é uma perda, nem de um lado nem de outro. Mas, antes, um processo de aprendizado e amadurecimento absolutamente necessário para os filhos. E um movimento de liberação e leveza para os pais. Um processo, por assim dizer, muito belo e curativo.

     

    Daniela Guima, mulher, jornalista, casada com Máximo há 10 anos, mãe de Rafaela e dos gêmeos Noah e Theo. Filha de Elce e Albano, a quem deseja liberar de suas expectativas ditatoriais mais do que nunca, procurando reconhecê-los atualmente como seus irmãos, que têm suas histórias, desafios e limitações próprias, e que não lhe devem mais nada. Sem jamais esquecer, é claro, toda a gratidão que sente por eles terem lhe dado a vida, e sido seus tutores nos primeiros anos de sua existência na Terra.



    Escrito por Dani Guima às 17h11
    [] [envie esta mensagem] []




    [ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]